domingo, 2 de janeiro de 2005

Quem não gosta de Renato Russo levante o dedo!


A diferença de Renato Russo

Severino Francisco

Quando a gente liga o rádio no carro, fica exposto ao maior asneirol musical. Mas, de repente, entra na linha a voz de Renato Russo e marca uma diferença brutal em relação à média da produção de música pop brasileira de tempos atuais: ‘‘Mudaram-se as estações/Mas nada mudou...’’. A diferença é enorme porque quando ouvimos algumas canções de Renato temos a certeza íntima de que elas já nasceram eternas como outras, de Noel Rosa, Cartola, Nelson Cavaquinho, Caetano Veloso, Tom Jobim, Gilberto Gil, Roberto Carlos. Por outro lado, temos a certeza de que a maioria das canções nas paradas das rádios e tevês já nasceram descartáveis. Existem cantores e grupos da década de 80 que apareciam em quase todos os programas da Xuxa ou do Faustão, tinham espaço cavado pelo jabá nas emissoras de rádio e desapareceram na fumaça dos tempos. Nem os fãs-clubes das bandas se lembram mais de suas canções.

A voz de Renato soa sobrenatural quando entra na linha. É como se tivéssemos sintonizado uma estação mediúnica. Ele já partiu da terra, mas a sua voz continua boiando no ar. Na semana passada, errando pelos meus arquivos implacáveis, encontrei uma cópia desbotada de uma entrevista que fiz com Renato Russo sobre os livros que fizeram sua cabeça. Pelo que me consta, é a única do gênero. O texto foi publicado na revista Leia Livros, de São Paulo, numa edição especial para uma Bienal do Livro.

A lembrança mais longínqua que guardo do Renato vem da participação do Aborto Elétrico, em uma peça dirigida pelo ator e diretor Jota Pingo, no antigo Teatro Galpão, da 508 Sul. A certa altura da peça, Renato voava da parte de cima do teatro para o palco, agarrado em uma corda, como um Tarzan magricela e de óculos. Logo que a banda caía no palco, empunhava a guitarra e berrava os versos de ‘‘Geração Coca Cola’’. A trama da peça incluía também a preparação de comida em tachos gigantes, que faziam a cena fumegar. E, ao final, todos os mendigos dos arredores da 508 Sul eram convidados a cair de boca no sopão junto com o público.

O segundo encontro ocorreu no Pamonhão Kalu, na 107 Norte, para cumprir uma pauta: o lançamento do primeiro disco da banda Legião Urbana. Com óculos, magro, ilustrado e de cabelos desgrenhados, Renato era um anti-star que desafiava todos os clichês do rock. Empenhava-se em contestar todas as perguntas e observações, mas a conversa deslanchou por causa de um livro que marcou a sua vida: o Tratado do Desespero, do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard, um dos fundadores do existencialismo. Existencialismo combina com rock porque é o conhecimento colado na vida, colado no corpo. Renato era um filósofo desgarrado no rock. Além do fator imponderável do talento, é essa conexão com a palavra e com a cultura que faz a diferença de Renato para com o restante da produção da cultura pop. Caetano Veloso ficava impressionado de como a garotada decorava as letras quilométricas de Renato.

Em seu último disco, o vocalista da banda Charlie Brown Jr., Chorão, um dos líderes do rock brasileiro atual, canta: ‘‘Eu não sei fazer poesia/e que se f...’’. O culto da ignorância leva a uma situação estapafúrdia de artistas que odeiam a arte. Na entrevista desbotada, Renato Russo diz que queria aprender francês para ler Rimbaud, talvez o mais genial poeta que pisou no planeta, o poeta que um dia sentou a beleza no seu colo. É uma das coisas que faz a diferença de Renato Russo. Eis a definição de cidade moderna formulada por Rimbaud: ‘‘Tudo aqui se resume a isso: um amor desesperado e um belo crime a choramingar na lama da rua’’.

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