sábado, 1 de janeiro de 2005

Essa saiu no Correio de hoje!

Crônica da Cidade

Para Brasília voar em 2005

Por Conceição Freitas

Vistas do mais alto do céu, donde os satélites acampam para fotografar o planeta, as grandes capitais brasileiras são manchas reluzentes. Entre elas, uma única tem forma definida. É uma borboleta faiscante, asas e corpo bordados de lantejoulas. De lá longe, lampejante. Cá de perto, cintilante. A mais perfeita imperfeição. Projeto grandioso e maltratado, o que haverá de querer para o ano que chegou?

Borboleta radiante no meio do Planalto Central brasileiro, Brasília tem história, identidade, arte, arquitetura, criação, labuta fervorosa. Mas poucos os que, em tendo poder, respeitam esse patrimônio precioso.

Brasília precisa de lei que ordene a ocupação das terras, que impeça a degradação dos rios, que diga pode, não pode. Lei que vigore, resoluta, acima das tramas de interesses visíveis e invisíveis.

Reclama por mais e mais gente que entenda quão preciosa é a história da criação do maior sítio da arquitetura modernista do planeta.

Brasília luzidia quer que 2005 a trate como ele mesmo tratará outras grandes metrópoles mundo afora. Cidades limpas de toda e qualquer parafernália publicitária que possa interferir em monumentos, pontos turísticos, patrimônios culturais.

Que o novo ano traga clarividência ao governo para que nitidamente se disponha a reformar a Rodoviária, hoje sombria imagem de uma inovação modernista que juntou prédio, vias e viadutos numa só obra. Firmeza para impedir o assédio das construtoras à orla do Lago Paranoá e rigor para punir os que desrespeitarem a lei. Grandeza para conservar o patrimônio da humanidade, a despeito de quaisquer outros interesses.

Do satélite não se vê, mas Brasília está sufocada pela miséria e, como ela, todas as grandes cidades brasileiras. Penúria que há muito varre o Brasil sem que se consiga vencê-la. A capital do país, do poder e das promessas sabe que, se o ano-novo não for novo mesmo, a Esplanada dos Ministérios poderá ecoar os protestos de outrora. Brasília já abrigou vários remakes desse filme. Espera, clama, está aflita por um novo roteiro.

Desenho rutilante do paraíso perdido, capital do país que um dia já foi o eldorado, Brasília deseja que 2005 cumpra o prometido em 2002, repetido em 2003, reafirmado em 2004. Borboleta encantada, Brasília espera que 2005 seja a hora do vôo.

Nenhum comentário: